» Conheça Aaren Di Cantermir. Ela possui trinta e dois32 anos. Se assemelha com K. Bell. É uma residente e encontra-se INDISPONÍVEL
“Informações Básicas”
◘ Possui a raça de um: “Humano”
◘ Tem habilidade de: Manipulação de armas leves.
— Everybody has a past:
Havia muita coisa que a intrigava além daquelas torres. Assistindo o vale vivo, morrer e renascer todos os anos, Aaren alimentava em segredo suas fantasias sobre o que estaria escondido no meio do campo sem sociedade, e da sociedade sem o campo. Depois de tantos anos tinha a chance de provar todas suas teorias, o monstro que a “criou” estava permitindo que voltasse para a realidade de onde viera apenas para visitar e cumprir com a missão. Ela nem podia reconhecer tantas coisas, afinal o mundo exposto ao sol que era realmente seu lar, foi escondido dela ainda muito, muito cedo. Há trinta e dois anos.
Na noite em que Drácula chegou a sua fortaleza com a criança, a primeira coisa que todos ouviram foi o choro. Depois sentiram o cheiro. Por fim a viram nos braços de seu senhor que parecia atormentado pelos gritos do bebê. Apesar de bem escondida num manto escuro, e com a voz já abafada pelo mesmo, os berros da humana eram impossíveis que serem calados por completo. Era um protesto pelo que faziam, e pela vida que haviam tirado dela, como parte de um preço a pagar por que lhe trouxeram para aquele mundo estranho, frio e escuro.
De fato, o problema fora justamente o escuro e o frio. Durante as três primeiras noites enquanto não descobriam o que acontecia com a criança que não parava de chorar, Drácula precisou se trancar numa torre do outro lado do palácio para não matá-la. Já haviam tentado de tudo, mas ninguém conseguia acertar. Uma de suas servas que já tinha assistido mães em sua vida passada conseguiu roupas e mantos mais macios na cidade. Estes se revelaram o segredo para conquistar a mansidão de Aaren, e pela primeira vez ao lado de duas velas, ela dormiu por uma noite inteira sem choros e agitações. O cargo para mantê-la “viva” foi dado justamente a essa criada, um prêmio pela tentativa acertada.
No início Aaren começou a chamar naturalmente Goth de “mãe”, mas sempre que o fazia era severamente repreendida. Aprendeu cedo que não existia mãe para ela, mesmo que aquilo a angustiasse engolia o choro guardando-o para seu travesseiro, e que Vlad era um tipo de pai especial, um tipo que merecia seu total respeito, admiração e amor. Uma ideia perigosa encucada com sucesso na mente da garota.
O primeiro resultado veio quando aos cinco anos, Aaren começou a demonstrar os sentimentos fortes que tinha pelo vampiro. Ele era mesmo perfeito. Muito bonito. Gentil com ela. E poderoso como nenhum outro ser – ela não conhecia muitos, mas sua noção de universo era disforme. Quando era chamada para comparecer a sua presença vibrava em seu quarto de alegria. Vestia os melhores vestidos, penteava os cabelos, e passava o batom que as amantes dele usavam. Queria estar bonita para agradá-lo, queria superar as expectativas dele em tudo que pedisse, e assim que as portas do salão lhe eram abertas para revelar Drácula, suspirava de encanto. Deitada em seu colo, acariciava-o, beijava suas mãos com carinho, e tocava seu rosto com certo receio de estragá-lo. Uma admiração doentia, jamais deixada de ser incentivada, e que a acompanhava em seus sonhos todas as noites, amadurecendo junto com a idade.
Aos doze anos teve coragem de beijá-lo nos lábios pela primeira vez. Nem se deu conta do que fazia, mas temeu, temeu por pensar que talvez tivesse ido longe demais. E chorou em silencio para não ser vista. Goth a chamou mais tarde na mesma noite para levá-la de volta a Vlad. Com as mãos tremendo, se aproximou dele esperando pela repreensão por tê-lo decepcionado, mas foi surpreendida quando ele apenas depositou outro beijo em sua testa e a abraçou provando que estava tudo bem. O gesto apenas solidificou ainda mais a loucura que a possuía.
Apesar da serenidade e devoção que Aaren mostrava na presença do pai, longe dele seu lado atrevido e exigente se mostrava indomável. Todos os outros que não fossem Drácula não eram dignos do amor da criança, nem de seu respeito. O estresse que os empregados passavam todos os dias por conta da garotinha endiabrada tornava a resistência ao instinto de matá-la ainda mais torturante. Diferente de Jane, ela não teve nenhum homem bom para que a ensinasse algum valor, apenas Goth, que nem boa era, tratou de ensinar algumas poucas boas maneiras a ferinha.
O verdadeiro desafio não era aquietá-la, ensiná-la ou fazê-la dormir, mas sim mantê-la dentro da fortaleza. A garota era muito boa em se esconder, conseguia passar por qualquer abertura deslocando-se com uma sutileza assustadora. Usando as diversas passagens e saídas entre as portas principais, deixava os empregados responsáveis por ela loucos, vasculhando cada minúsculo cantinho para que conseguissem apanhá-la antes que de fato fugisse. Todos sabiam que ela iria voltar, mas Vlad tinha sido claro que não queria sua criança fora do palácio.
Numa noite, logo depois de ter sido pega numa das saídas dos criados, já com seus dezesseis anos, Aaren teve um surto de raiva inexplicável. Goth a manteve em seu quarto até que a fase estranha passasse, e durante esse tempo a garota exigia respostas de dúvidas que ela jamais teve, sobre sua verdadeira família, por que estava ali, quem realmente era, por que Drácula a queria. Quando já não suportava mais a agitação da garota, a empregada bateu em seu rosto com força dizendo que Vlad era a única família dela, que estava ali por vontade dele, que era a filha de um vampiro, e que ele tinha planos poderosos que se concretizariam em breve. Tal atitude deveria ter levado Goth para a morte certa, mas Aaren não reagiu como esperavam, e voltou ao seu estado normal sem nunca comentar com o pai o que tinha acontecido.
Na madrugada anterior ao seu aniversário de vinte e um anos, enquanto visitava mais uma vez as masmorras do palácio, mal humorada quanto à inflexibilidade de todos ali que ainda a mantinham prisioneira naquele submundo, encontrou seu homem-lobo favorito prestes a fazer sua última refeição do dia. Destrancando a cela, e chutando o prato de carne crua para longe o tirou dali sem aceitar muitas perguntas. Levou-o para seu quarto, algo arriscado que raramente fazia, e lá ele lhe perguntou o que estava incomodando-a, como se fossem um casal normal, seminu, discutindo os problemas do dia. A conversa foi breve e Aaren se deliciou de cada segundo de atenção que ganhava, depois de pontuar sua insatisfação com a vida, deixou que ele tirasse o restinho de roupa que ela usava, e se deitaram juntos pela segunda vez, uma noite que valeu como um maravilhoso presente de aniversário. Depois de algum tempo o fruto daquela atitude caiu como uma bomba para Goth que ao notar as alterações físicas e biológicas da mulher, descobriu a gravidez.
Não demorou muito para que Aaren confessasse o que tinha acontecido à “babá” que ficou enlouquecida e apavorada. Também sentia medo, mas por algum motivo estava segura para falar com o pai sobre aquilo. “Ele me ama, e vai compreender” ela pensava. Goth a proibiu de comentar qualquer coisa com qualquer um, e no mesmo dia lhe trouxe um remédio, Aaren não tinha certeza do que era, mas aquilo lhe fez mal. Não se lembra de ter vivido noite pior, Drácula foi impedido de ir vê-la e só recebeu a notícia que a filha “não passava bem”. O veneno causou o aborto que afetou Aaren muito mais do que se esperava. Ela queria a criança.
Depois que já estava “bem”, Vlad foi até ela para lhe revelar uma surpresa. Ele a levaria para conhecer a cidade, os humanos, e o sol pela primeira vez. Mas a euforia pela notícia não veio, o clima depressivo e perturbador acompanharam os dois no passeio inteiro, nem mesmo os enfeites de Natal foram capazes de amenizar o que estava acontecendo. Drácula se mostrou preocupado, mas Aaren não revelou nada, disse apenas que era grata por finalmente estar livre, e que seguiriam com o plano. Aos poucos sua curiosidade por trás de todos os planejamentos de seu pai começou a contaminar sua obsessão por ele. Nunca mais viu o lobisomem com quem se envolveu, mas tinha liberdade, até mesmo para começar a duvidar.